Dona Conceição, 67 anos, começou plantando temperos num canteiro improvisado. Hoje, a horta que ela criou alimenta 40 famílias e virou referência de economia solidária no bairro de Plataforma.
Conceição dos Santos não planejou virar referência de nada. Ela só queria plantar. "Eu cresci vendo minha mãe plantar. Quando me aposentei, senti falta da terra", conta ela, enquanto arranca ervas daninhas de um canteiro de coentro.
O terreno que ela ocupou, em 2019, era um lixão informal no bairro de Plataforma, no Subúrbio Ferroviário de Salvador. Garrafas, sacos plásticos, entulho. "Todo mundo jogava lixo aqui. Eu comecei a limpar e a plantar. As pessoas achavam que eu era louca."
Não era. Sete anos depois, a Horta Comunitária Plataforma ocupa 1.200 metros quadrados, produz 18 tipos de hortaliças e ervas, e distribui alimentos para 40 famílias cadastradas toda semana. Vinte e três pessoas trabalham voluntariamente na horta, e outras oito recebem uma bolsa mensal de R$ 400 pelo trabalho de manutenção, financiada por doações e pela venda de excedentes em feiras locais.
"A gente não resolve a fome da cidade. Mas a gente resolve a fome do bairro, um pouco", diz Conceição.
A história da horta é também a história de uma comunidade que aprendeu a se organizar. O grupo que trabalha com Conceição criou uma associação formal em 2022, o que permitiu acessar editais de fomento da Prefeitura de Salvador e do governo estadual. Com esses recursos, construíram um sistema de irrigação por gotejamento e compraram ferramentas adequadas.
"Antes, a gente regava com mangueira velha. Hoje tem tecnologia", brinca Conceição.
O modelo chamou atenção da Secretaria Municipal de Desenvolvimento e Urbanismo, que está mapeando outras áreas degradadas na cidade com potencial para projetos similares. "A Conceição mostrou que é possível. Agora a gente quer replicar", diz a secretária adjunta Mônica Ferreira.
Para Conceição, o mais importante não é a horta em si. "É o que acontece quando as pessoas se juntam para fazer algo. A gente se conhece, se ajuda. O bairro fica mais humano."
Ela ainda planta todo dia. E ainda arranca ervas daninhas com as próprias mãos.