Com 2,5 milhões de foliões nas ruas, o Carnaval de Salvador 2026 foi o maior desde a pandemia. Mas as mudanças no formato e as tensões sobre comercialização levantaram debates importantes sobre o futuro da festa.
O Carnaval de Salvador de 2026 entrou para os registros como o maior desde 2019. Segundo a Secretaria de Turismo do Estado, 2,5 milhões de pessoas circularam pelas ruas da cidade durante os seis dias de festa, gerando impacto econômico estimado em R$ 2,1 bilhões.
Os números são motivo de celebração. Mas por trás deles há tensões que o Carnaval de Salvador carrega há décadas — e que este ano voltaram ao centro do debate.
A principal delas é a relação entre os circuitos pagos e o carnaval popular. Os trios elétricos com camarotes fechados, que concentram os artistas de maior apelo comercial, seguem dominando a cobertura midiática e o imaginário do Carnaval baiano. Mas o carnaval que acontece fora dos cordões — nos blocos afro, nas ladeiras do Pelourinho, nas festas de bairro — é, para muitos soteropolitanos, o verdadeiro.
"O Carnaval que aparece na televisão não é o meu Carnaval", diz a professora de dança afro Yemisi Barbosa, 44 anos, que participa do bloco Ilê Aiyê há 20 anos. "O meu Carnaval é o que a gente faz na comunidade, com a nossa história, nossa música."
O Ilê Aiyê, fundado em 1974 como o primeiro bloco afro do Brasil, completou 52 anos em 2026 e continua sendo um dos símbolos mais poderosos da resistência cultural negra em Salvador. O bloco não aceita foliões brancos — uma política que já foi alvo de críticas e que seus membros defendem como necessária para preservar o espaço de celebração da identidade negra.
Por outro lado, artistas como Ivete Sangalo e Bell Marques — que se apresentaram nos circuitos pagos — atraíram multidões e geraram receita que financia toda a estrutura do evento. "Sem o dinheiro dos camarotes, não tem Carnaval para ninguém", argumenta o produtor cultural Márcio Leal.
O debate sobre o modelo do Carnaval soteropolitano não tem solução fácil. Mas o fato de ele existir — com vozes diversas e perspectivas conflitantes — é, em si, parte da riqueza da festa.