Saúde

Saúde pública em Salvador: os avanços e os gargalos que persistem

Saúde pública em Salvador: os avanços e os gargalos que persistem

A cobertura da Atenção Básica em Salvador cresceu nos últimos anos, mas a capital baiana ainda enfrenta desafios sérios em especialidades médicas, tempo de espera e infraestrutura das unidades.

Salvador tem hoje 283 Unidades de Saúde da Família (USF) em funcionamento, cobrindo 72% da população com atenção básica — um avanço significativo em relação aos 58% de 2019. Mas quando o problema de saúde exige especialista, o cenário muda.

O tempo médio de espera para consulta com cardiologista no SUS em Salvador é de 4,2 meses. Para ortopedista, 5,8 meses. Para cirurgia eletiva, a fila pode chegar a dois anos. Esses números, levantados pelo Conselho Municipal de Saúde em relatório de 2025, mostram que a expansão da atenção básica não foi acompanhada de investimento equivalente na atenção especializada.

"A gente resolveu o problema da porta de entrada. Mas quando o paciente precisa avançar no sistema, trava", diz a médica de família Renata Oliveira, que trabalha em uma USF no bairro de Cajazeiras.

O problema é estrutural e não é exclusivo de Salvador. Mas na capital baiana ele é agravado por fatores específicos: a concentração de serviços especializados em poucos hospitais de referência, a dificuldade de acesso para moradores do Subúrbio Ferroviário e das ilhas, e a alta rotatividade de médicos especialistas no serviço público.

A Secretaria Municipal de Saúde anunciou em janeiro a contratação de 120 especialistas para reforçar as policlínicas regionais. Mas entidades médicas dizem que o número é insuficiente e que o problema salarial — médicos especialistas no SUS de Salvador ganham em média 40% menos do que em capitais do Sudeste — dificulta a atração de profissionais.

Para os moradores, o impacto é concreto. "Minha mãe esperou seis meses para ver um cardiologista. Quando chegou a consulta, ela já tinha tido um infarto", conta o vendedor ambulante Ednaldo Santos, 38 anos, do bairro de Periperi. "Isso não pode ser normal."

A Prefeitura de Salvador diz que está trabalhando para reduzir as filas e que o problema exige investimento federal. O governo federal, por sua vez, aponta para a necessidade de os municípios assumirem mais responsabilidade na gestão. Enquanto o debate continua, os pacientes esperam.

Jorge Almeida
Jorge Almeida
Repórter

Formado em jornalismo pela UFBA. Especializado em cobertura de comunidades periféricas e movimentos sociais em Salvador.